Este estudo analisa a obra Cartas da Mãe, de Henfil, com o objetivo de refletir sobre as estratégias discursivas utilizadas pelo autor, a fim de viabilizar a livre circulação de sua voz contestatória, no estreito espaço público do período de distensão militar no Brasil. Para compreender a intervenção intelectual de Henfil no espaço público dos anos de redemocratização, buscou-se relacionar o contexto sociopolítico daquele momento à midiatização desse espaço, atentando-se tanto para os limites de influência social da mídia, quanto para o lugar ocupado pelas vozes da resistência política nos meios de comunicação. A investigação do comportamento discursivo do enunciador aponta para a multiplicidade de estratégias, dentre as quais se destacam a familiaridade, a alegoria e a sátira. As imagens familiares extrapolaram os limites domésticos e foram reconfiguradas sob a perspectiva combativa de Henfil, transformando-se em instrumentos de conscientização social e luta pela democracia. Destaca-se, ainda, a arquitetura de valores relacionados à nacionalidade e à identidade, que, ao invadir o domínio caseiro, revelou a conduta intervencionista e o colorido indiscreto da ironia de Henfil.